Nietzsche tem essa ideia inconveniente: que a vontade de poder não é uma ânsia por status ou posição, mas o impulso de se tornar mais plenamente si mesmo - e que a adversidade, o lado desagradável, é exatamente a forja. O que não me mata engorda ... A parte que adoraríamos pular é como o poder se expressa. Ele chamou quem se supera de Übermensch - não um super-herói, mas um humano que para de esperar permissão e começa a legislar seus próprios valores.

Então me permite um trocadilho barato e irresistível, porque foi assim que aprendi nos blogs da época dourada dos anos 2010: o dev que sobrevive nessa década não vai ser o que sobrevive ao layoff na força do LeetCode. Vai ser o überdev - o além-do-dev - que trepam para fora da workstation de codeiro e entram nas partes que desprezamos: marketing, conteúdo, negócio.

GenZ tirou uma mão ruim

Nós estávamos no Discord, mostrando pro Adan o progresso até agora. Adan é um espécime típico de Gen Z - que apanhou dos eventos dos anos 2020 (até agora).

Primeira porrada: a Pandemia durante a faculdade: O remote-first dificultou vagas de entrada, limitou o networking

Segundo porrada: a Inteligência Artificial: Os degraus de entrada sumindo, skill commoditizado: O aprendizado do ofício fundamentalmente prejudicado - o pior impacto no longo prazo

O meme é real: boomers e zoomers pedem ajuda ao millennial pra debugar a impressora. Uma mesa bem hostil de jogar...

Devs perderam a reserva de mercado

Programar era um conhecimento esotérico arcano - e de alta demanda. Se alguém quisesse construir uma aplicação - precisava de devs. Não havia jeito de contornar. Mesmo que o empreendedor fosse técnico - o trabalho era grande demais para uma pessoa só. O sucesso excepcional de solodevs rodando projetos fundamentais de open source é uma inspiração incrível para todos. Mas eles são excepcionais - a exceção.

Agora qualquer um com uma conta no Claude Code pode construir. Especialmente aplicações web típicas:

Olha só o que eu fiz com o Claude: http://127.0.0.1:8000

A escassez de codar sumiu - commoditizado. (enquanto o custo dos tokens for barato como está agora)

Acredito que só devs foram impactados pela IA - todos os profissionais de informação/serviços tendem a ser afetados. Mas isso é um artigo inteiro - além do meu ponto aqui.

Um caso concreto

Em outro projeto, o principal problema para aquisição e retenção de usuários era a falta de um app nativo.

Faz anos que ~75% dos humanos navegam com celular - não desktop. Nem vou começar sobre os +90% do tráfego serem bots, e por que a internet está morta. Nem expor minhas opiniões - tipo: mobile bad!

Essa era a mão que tiramos. Mobile domina - e não tínhamos app. A equipe eram do tipo web/backend - não eram familiarizados com o stack mobile.Os recursos eram escassos.

Faz mais ou menos um mês, o próprio CEO - um cara inteligente com background de marketing e curiosidade -perguntou: Quão difícil é? Ele instalou o Claude Code e começou um shell de app. Ficou animadíssimo! Em uns 2 dias - esse shell de app parecia um app completo. Estava em êxtase - como se tivesse bebido o hidromel da poesia.

Na semana seguinte - os devs gambiarraram alguns endpoints de api. Feito! Uma lacuna de quase uma década fechada - por um cara de marketing com Claude Code Tinham tido pelo menos duas tentativas anteriores frustradas.

No mês seguinte, Claudinho e o time finalizaram o resto.

Tornando-se o überdev

Houve onda de layoffs durante a crise da imprensa tradicional. Jornalistas foram deslocados pelo modelo de conteúdo da internet. A provocação comum contra eles era: "Aprenda a programar" Esse era certamente um conselho míope - em poucos anos as coisas viraram. Devs estão sendo provocados: "Aprenda a soldar" Talvez muitos deveriam começar a dirigir pra Uber.

Não que a engenharia de software esteja resolvida. A complexidade essencial de Fred Brooks está muito bem, obrigado.

A única saída é pra cima - especialmente para a Gen Z. Dessa vez tornar-se algo além, algo em um nível mais alto.

O que os números realmente dizem

Abri o Google Analytics esperando a clássica choradeira: algumas centenas de visitas, geral saindo em oito segundos, o dar de ombros coletivo da internet.

Em vez disso, o tempo médio de engajamento por usuário ativo foi de 5min 03s.

Cinco minutos, porra! Múltiplos do tempo de atenção atual! A régua de "bom" na web fica abaixo de um minuto - a maioria das páginas nunca passa dos trinta segundos antes da aba morrer. E as calculadoras eram ainda mais escandalosas:

Página Engajamento médio
Calculadora de nutrição 7min 26s
Calculadora de relação e potência 4min 59s
Calendário de eventos 1min 36s
Página inicial 36s

A página inicial se comporta como uma página web normal - a pessoa dá uma olhada e vai embora. Já as ferramentas se comportam como app. Sete minutos de alguém realmente sentado com uma calculadora de fuel plan, arrastando sliders, fazendo a coisa - Caramba! Me sinto um fornecedor de brainrot!

A surpresa

Meu primeiro instinto foi o cínico: sou eu. Sessões de dev vazando pro analytics de produção, uma aba esquecida aberta, o hot-reload inflando os números. Fui checar,e não era. Os sete minutos são de humanos de verdade.

E aqui está a parte que bate na tese. O que segura a atenção não é código. Ninguém lê minhas views do Django por sete minutos. O que segura é a utilidade - o fuel plan que responde uma pergunta que a pessoa realmente tinha antes de uma prova, a calculadora de marchas que diz que velocidade ela vai segurar numa rampa de 6%. Isso é conteúdo-guiado-por-software.

Me lembra do meu primeiro PC, quando a criança ganhava um CD-ROM com uma enciclopédia multimídia interativa.

Pra ser franco - programar foi a parte menos importante da cadeia de valor - o Claude Code escreveu a primeira versão em algumas horas, polimos em uma semana. Qualquer um poderia fazer. IMHO, o que faz ou quebra é o conhecimento de domínio - adoro ciclismo, sou meio obcecado com bikes (montagem e upgrades). O engajamento vem de saber o que deseja ciclista, enquadrar a ferramenta em torno do problema dele, escrever a coisa de um jeito que valha a pena ficar. As partes do überdev.

Os números não disseram "bom software". Bits-n-bytes foi a parte barata; precisamos engolir o orgulho técnico. Os números dizem: "As pessoas valorizam o que você oferece".